As Músicas do Realejo
O Spotify do século XIX
"Muito antes do rádio, dos discos e da internet, o realejo já levava os grandes sucessos musicais para as ruas."
Imagine viver em uma época em que não existiam gravações.
Nenhum CD.
Nenhum rádio.
Nenhuma televisão.
Nenhum telefone.
Nenhuma plataforma de música.
Se alguém quisesse ouvir uma melodia, havia apenas duas possibilidades.
Alguém precisava cantá-la.
Ou alguém precisava tocá-la.
Foi nesse mundo que o realejo conquistou milhões de admiradores.
Pela primeira vez na história, uma máquina conseguia repetir exatamente a mesma música centenas de vezes por dia, em qualquer lugar.
Hoje isso parece comum.
Na época, era revolucionário.
A democratização da música
Durante séculos, ouvir música de qualidade era um privilégio.
As grandes apresentações aconteciam em:
igrejas;
palácios;
teatros;
casas da aristocracia.
Grande parte da população jamais pisaria nesses lugares.
O realejo mudou essa realidade.
Levou música para:
ruas;
feiras;
mercados;
praças;
portos;
bairros populares.
Pela primeira vez, pessoas de diferentes classes sociais ouviam as mesmas melodias.
Foi uma verdadeira democratização cultural.
Como eram escolhidas as músicas?
Os fabricantes acompanhavam atentamente o gosto do público.
Sempre que uma composição fazia sucesso, logo surgiam pedidos para incluí-la nos cilindros ou cartões perfurados.
Assim como hoje existem listas das músicas mais ouvidas, também havia repertórios considerados indispensáveis.
Os realejeiros queriam tocar aquilo que atraísse pessoas.
Quanto mais conhecido fosse o tema musical, maior era o público.
As óperas conquistam as ruas
Poucas formas de arte influenciaram tanto o repertório dos realejos quanto a ópera.
Compositores como:
Wolfgang Amadeus Mozart;
Gioachino Rossini;
Giuseppe Verdi;
Gaetano Donizetti;
Vincenzo Bellini.
produziram melodias tão populares que rapidamente foram adaptadas para órgãos mecânicos.
Nem sempre era possível executar a obra inteira.
Os fabricantes selecionavam os trechos mais conhecidos.
As famosas árias.
Os refrões instrumentais.
Os temas mais fáceis de reconhecer.
Assim, mesmo quem jamais assistira a uma ópera aprendia suas melodias.
As valsas
Se existisse um ritmo que simbolizasse o século XIX, provavelmente seria a valsa.
Elegante.
Romântica.
Leve.
Era perfeita para os mecanismos do realejo.
Entre os compositores mais executados estavam:
Johann Strauss (pai).
Johann Strauss (filho).
Josef Strauss.
As melodias vienenses espalharam-se por toda a Europa graças, em parte, aos órgãos mecânicos.
Polcas, marchas e mazurcas
Nem toda música era sofisticada.
As ruas exigiam repertórios animados.
Por isso faziam enorme sucesso:
polcas;
marchas militares;
mazurcas;
quadrilhas;
danças folclóricas.
Essas músicas convidavam as pessoas a sorrir.
Algumas eram tão conhecidas que bastavam poucos compassos para que o público começasse a cantar.
Música religiosa
Em muitas cidades, principalmente durante festas religiosas, os realejos executavam repertórios específicos.
Incluíam:
hinos;
canções natalinas;
procissões;
melodias sacras.
Isso aproximava ainda mais o instrumento da vida cotidiana.
O realejo não era visto apenas como entretenimento.
Também participava de momentos de celebração comunitária.
Canções populares
Cada país adaptava o repertório ao gosto local.
Em Portugal surgiam modinhas e canções tradicionais.
Na Espanha apareciam zarzuelas e pasodobles.
Na Itália predominavam melodias inspiradas na ópera.
Na França faziam sucesso as canções parisienses.
Na Alemanha, danças e músicas folclóricas.
No Brasil, pouco a pouco, começaram a aparecer adaptações de modinhas, choros e melodias populares.
O realejo nunca foi um instrumento estático.
Evoluía junto com o público.
Quantas músicas cabiam em um realejo?
Depende do mecanismo.
Os primeiros cilindros normalmente armazenavam entre seis e doze músicas.
Com o aperfeiçoamento dos sistemas surgiram cilindros intercambiáveis.
Depois vieram os cartões perfurados.
Mais tarde, os livros perfurados.
Essas inovações permitiram ampliar enormemente o repertório.
Alguns músicos carregavam várias coleções.
Escolhiam as melodias conforme o público.
Pedidos musicais
Há registros de que alguns frequentadores faziam pedidos.
Quando o realejeiro possuía a música, atendia prontamente.
Isso criava uma relação de proximidade.
Os clientes voltavam justamente porque sabiam que ouviriam suas melodias favoritas.
Era um serviço bastante parecido com o funcionamento das antigas jukeboxes do século XX.
As limitações
Nem toda música podia ser adaptada.
O número reduzido de tubos limitava a complexidade das harmonias.
Os arranjadores precisavam simplificar certas passagens.
Mesmo assim, conseguiam resultados surpreendentes.
A essência da composição permanecia reconhecível.
É por isso que muitos ouvintes identificavam imediatamente temas famosos.
O trabalho do arranjador
Pouca gente conhece essa profissão.
Antes de construir um cilindro, era necessário adaptar cuidadosamente cada música.
O arranjador decidia:
quais notas seriam mantidas;
quais poderiam ser omitidas;
como distribuir acordes;
quais registros utilizar.
Era um trabalho extremamente especializado.
Misturava conhecimento musical com engenharia.
A música como memória
Existe uma característica fascinante da música.
Ela desperta lembranças com enorme intensidade.
Talvez por isso tantas pessoas associem o realejo à infância.
Ao ouvir novamente determinada melodia décadas depois, recordavam imediatamente:
a praça,
a rua,
o canário,
o bilhete,
a família.
O instrumento tornava-se um gatilho de memórias afetivas.
Quando chegou o rádio
No início do século XX surgiu um concorrente imbatível.
O rádio.
Pela primeira vez era possível ouvir orquestras completas sem sair de casa.
Novas músicas chegavam diariamente.
Os realejos perderam espaço.
Mas deixaram um legado importante.
Durante quase um século foram responsáveis por divulgar repertórios que talvez nunca chegassem às camadas populares.
Nesse sentido, desempenharam um papel semelhante ao que as plataformas digitais cumprem hoje.
A preservação do repertório
Diversos museus europeus mantêm cilindros e livros perfurados originais.
Esses documentos permitem reconstruir exatamente o repertório executado há mais de cem anos.
Graças a eles sabemos quais composições eram mais populares em diferentes períodos e países.
É uma fonte preciosa para musicólogos e historiadores.
O som característico
Mesmo quando executava Mozart ou Verdi, o realejo nunca soava exatamente como uma orquestra.
Possuía uma identidade própria.
Os tubos produziam um timbre metálico, brilhante e levemente nostálgico.
Bastavam poucos segundos para que qualquer pessoa reconhecesse aquele som.
Essa assinatura sonora tornou-se inseparável da memória do instrumento.
Muito mais que entretenimento
Hoje entendemos que o realejo fez muito mais do que divertir.
Ele educou musicalmente gerações inteiras.
Apresentou compositores clássicos a pessoas que jamais frequentariam um teatro.
Popularizou melodias.
Criou referências culturais comuns.
Em muitos aspectos, foi um dos primeiros grandes veículos de difusão musical da história.
Curiosidade
Muitas melodias preservadas em cilindros de realejos desapareceram dos palcos e dos concertos. Em alguns casos, esses mecanismos mecânicos são a única fonte que permite conhecer como determinadas adaptações populares eram executadas no século XIX.
Todos os capítulos
- Prefácio
- 1. O Instrumento que Encantou o Mundo
- 2. O Nascimento do Realejo
- 3. A Evolução dos Órgãos Mecânicos
- 4. O Século de Ouro dos Realejos
- 5. Como o Realejo Conquistou a Europa
- 6. O Realejo Chega ao Brasil
- 7. Como Funciona um Realejo
- 8. Os Grandes Fabricantes de Realejos
- 9. O Pássaro da Sorte
- 10. Os Bilhetes da Sorte
- 11. As Músicas do Realejo
- 12. O Realejo na Literatura, na Pintura e no Cinema
- 13. Os Últimos Realejeiros do Mundo