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Capítulo 12

O Realejo na Literatura, na Pintura e no Cinema

Quando um instrumento musical se transformou em símbolo cultural

"Alguns instrumentos produzem música. O realejo produziu memória."

Poucos objetos da cultura popular aparecem tantas vezes nas artes quanto o realejo.

Ao longo de mais de dois séculos, escritores, pintores, fotógrafos, poetas e cineastas recorreram à sua imagem para representar sentimentos profundamente humanos.

Infância.

Nostalgia.

Esperança.

Solidão.

Destino.

Passagem do tempo.

A explicação é simples.

O realejo nunca era apenas música.

Sua chegada interrompia a rotina.

Por alguns minutos, a cidade desacelerava.

As pessoas sorriam.

Conversavam.

Esperavam o canário.

Liam um bilhete.

Depois tudo voltava ao normal.

Essa pequena pausa transformou-se em uma poderosa metáfora artística.

O realejo na literatura

Desde o século XIX, diversos escritores utilizaram o realejo em romances, contos e crônicas.

Nem sempre ele ocupa papel central.

Às vezes aparece apenas durante alguns parágrafos.

Mesmo assim, sua presença modifica completamente a atmosfera da narrativa.

O som do realejo costuma anunciar:

uma lembrança;

um reencontro;

uma reflexão;

uma mudança emocional;

a chegada de alguém;

o início de uma nova fase.

Poucos elementos urbanos possuíam essa força simbólica.

Machado de Assis

No Brasil, Machado de Assis faz referências aos realejos em suas crônicas e na descrição da vida cotidiana do Rio de Janeiro do século XIX.

Para Machado, o instrumento integra a paisagem urbana.

Não é um acontecimento extraordinário.

É parte da cidade.

Assim como os bondes, os vendedores ambulantes e os pregões das ruas.

Essa naturalidade é importante.

Ela demonstra o quanto o realejo estava incorporado ao cotidiano brasileiro.

Eça de Queirós

Em Portugal, Eça de Queirós também registra a presença dos realejos em diferentes passagens de sua obra.

Nas ruas de Lisboa, o instrumento aparece associado à vida popular.

Ao movimento dos bairros.

À convivência entre diferentes classes sociais.

Mais do que um objeto, o realejo ajuda a construir o cenário humano das cidades portuguesas.

Charles Dickens

Na Inglaterra, Charles Dickens descreve com frequência músicos ambulantes, vendedores e artistas de rua que faziam parte da Londres vitoriana.

Embora nem sempre destaque o realejo como personagem principal, os órgãos mecânicos aparecem compondo a rica paisagem sonora da cidade.

Para Dickens, esses sons representam o contraste entre riqueza e pobreza.

Entre luxo e simplicidade.

Entre infância e sobrevivência.

Federico García Lorca

O poeta espanhol Federico García Lorca utiliza diversas imagens ligadas à música popular e aos organillos espanhóis.

Em sua poesia, o instrumento frequentemente surge envolvido por uma atmosfera de melancolia.

O som parece carregar memórias.

Evocar ausências.

Despertar emoções profundas.

Essa interpretação influenciou muitos artistas espanhóis do século XX.

Um personagem silencioso

Existe uma característica curiosa.

O realejo raramente fala.

Ele não possui voz.

Mesmo assim comunica sentimentos.

Os escritores descobriram cedo que bastava mencionar seu som para que o leitor imaginasse imediatamente uma praça antiga, uma rua estreita ou uma tarde ensolarada.

Poucos objetos possuem tamanho poder evocativo.

O realejo na pintura

Antes da fotografia tornar-se popular, os pintores registravam cenas do cotidiano urbano.

E o realejo aparecia constantemente.

Os artistas gostavam especialmente de representar:

crianças ao redor do músico;

mulheres lendo os bilhetes;

o pequeno canário;

ruas movimentadas;

mercados;

praças.

Essas pinturas hoje constituem importantes documentos históricos.

Elas mostram roupas.

Arquitetura.

Instrumentos.

Hábitos sociais.

Muito do que sabemos sobre os realejeiros vem justamente dessas imagens.

Os impressionistas

Durante a segunda metade do século XIX, diversos pintores impressionistas voltaram sua atenção para cenas simples da vida urbana.

Embora o realejo não tenha sido um tema exclusivo do movimento, aparece em várias obras produzidas nesse período.

Isso demonstra como fazia parte da experiência cotidiana das cidades europeias.

Os artistas não precisavam inventar uma cena.

Bastava sair às ruas.

A fotografia

No final do século XIX, a fotografia começou a substituir lentamente a pintura documental.

Os fotógrafos registraram centenas de realejeiros.

Hoje essas imagens permitem observar detalhes extraordinários.

Como eram as roupas.

Como os instrumentos eram transportados.

Onde o canário ficava.

Como o público se posicionava durante as apresentações.

Essas fotografias são verdadeiras cápsulas do tempo.

O cinema

Quando o cinema surgiu, no final do século XIX, o realejo já era conhecido por milhões de pessoas.

Naturalmente passou a aparecer nas telas.

Primeiro nos filmes mudos.

Depois nas produções sonoras.

Diretores utilizavam o instrumento para situar rapidamente determinada época.

Bastava mostrar um realejeiro caminhando por uma rua.

O espectador compreendia imediatamente que estava diante de uma cidade antiga.

Até hoje o recurso continua sendo utilizado.

O realejo nas animações

Muitos desenhos animados recorreram ao realejo para criar ambientes nostálgicos.

Seu som tornou-se um atalho emocional.

Ao ouvi-lo, o público reconhece instantaneamente uma atmosfera de feira antiga, praça histórica ou bairro tradicional.

Poucos instrumentos possuem identidade sonora tão marcante.

A música da memória

Neurocientistas explicam que determinados sons despertam lembranças com enorme intensidade.

O timbre característico do realejo atua exatamente dessa maneira.

Mesmo pessoas que nunca ouviram um instrumento original costumam associar seu som a:

infância;

brincadeiras;

parques;

festas;

tempos mais simples.

É um fenômeno cultural construído ao longo de muitas gerações.

Um símbolo da passagem do tempo

Talvez seja esse o motivo pelo qual tantos artistas recorreram ao realejo.

Ele representa simultaneamente duas ideias.

Movimento.

E permanência.

O músico segue seu caminho.

As pessoas mudam.

As cidades se transformam.

Mas a melodia permanece.

Ela atravessa gerações.

Poucos símbolos conseguem expressar tão bem essa continuidade.

O desaparecimento que fortaleceu o mito

Curiosamente, o realejo tornou-se ainda mais simbólico depois que desapareceu das ruas.

Enquanto fazia parte do cotidiano, era apenas mais um elemento urbano.

Quando deixou de existir, passou a representar um tempo perdido.

Essa transformação ocorreu com muitos objetos históricos.

Mas poucos carregam tanta carga emocional quanto o realejo.

Hoje ele não desperta apenas curiosidade.

Desperta saudade.

Mesmo em pessoas que nunca chegaram a vê-lo pessoalmente.

O realejo continua vivo

Livros.

Museus.

Filmes.

Fotografias.

Festivais.

Exposições.

Projetos culturais.

Todos ajudam a manter viva essa tradição.

Mais recentemente, iniciativas digitais passaram a reinterpretar a experiência dos antigos bilhetes da sorte.

O instrumento deixou de depender das ruas.

Agora também pode habitar o universo digital.

O formato mudou.

A essência permanece.

Levar música, inspiração e um instante de pausa para quem precisa.

Curiosidade

Em diversas línguas, a simples palavra realejo, organillo, barrel organ ou street organ desperta imediatamente imagens de infância e nostalgia. Poucos instrumentos musicais alcançaram um reconhecimento simbólico tão universal.