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Capítulo 6

O Realejo Chega ao Brasil

A música que atravessou o Atlântico

"Quando o realejo desembarcou no Brasil, encontrou um país jovem, multicultural e apaixonado pela música."

Não existe um documento único que registre exatamente quando o primeiro realejo chegou ao Brasil. Como tantas outras tradições populares, sua introdução foi gradual, acompanhando os fluxos migratórios e as transformações sociais do século XIX.

O que sabemos é que, entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX, navios vindos principalmente de Portugal começaram a trazer, além de mercadorias, costumes, ofícios e formas de entretenimento que logo se integrariam à vida cotidiana da colônia e, posteriormente, do Império.

Entre esses costumes estava o realejo.

Não veio como objeto de luxo.

Nem como instrumento de concerto.

Chegou pelas mãos de homens simples que percorriam ruas e praças levando música onde ela dificilmente chegaria de outra forma.

O Brasil do século XIX

Para compreender o sucesso do realejo em nosso país, é preciso imaginar como eram as cidades brasileiras daquela época.

O Rio de Janeiro, capital do Império, possuía ruas estreitas e movimentadas.

Vendedores ambulantes anunciavam seus produtos em voz alta.

Ferreiros trabalhavam com portas abertas.

Carroças cruzavam os bairros.

Sinos marcavam as horas.

Bandas militares animavam datas festivas.

Nesse ambiente cheio de sons, o realejo encontrava um público naturalmente receptivo.

Sua música misturava-se ao cotidiano urbano.

Não era considerada um espetáculo extraordinário.

Era parte da vida.

Os portugueses trouxeram a tradição

Grande parte dos primeiros realejeiros brasileiros era formada por imigrantes portugueses.

Muitos já conheciam o ofício em Lisboa, Porto ou Coimbra.

Ao chegarem ao Brasil, descobriram que o instrumento despertava a mesma curiosidade que na Europa.

As crianças corriam para ouvir.

Os adultos faziam pequenas contribuições em troca de algumas músicas.

Logo surgiu também a tradição dos bilhetes da sorte.

Embora inspirada no costume português, ela adquiriu características próprias.

As mensagens passaram a refletir o modo de falar brasileiro.

Misturavam religiosidade, humor, sabedoria popular e esperança.

Um espetáculo itinerante

Os relatos da época descrevem o realejeiro caminhando lentamente pelas ruas, transportando o instrumento preso ao corpo por largas correias de couro ou apoiado sobre um pequeno carrinho.

Ao encontrar uma praça movimentada, escolhia um local sombreado e iniciava a apresentação.

As primeiras notas bastavam para chamar a atenção.

Poucos minutos depois formava-se uma pequena roda.

As crianças ocupavam naturalmente os primeiros lugares.

Os adultos permaneciam logo atrás.

Quando a música terminava, chegava o momento mais esperado.

O canário.

O canário brasileiro

Assim como em Portugal, o pequeno pássaro rapidamente conquistou o coração do público.

Mas havia uma diferença.

No Brasil, onde os pássaros sempre ocuparam lugar especial na cultura popular, o canário tornou-se quase um personagem independente.

As crianças acreditavam que ele possuía inteligência extraordinária.

Algumas imaginavam que conseguia ler pensamentos.

Outras diziam que escolhia o bilhete certo para cada pessoa.

Os realejeiros alimentavam essas histórias.

Nunca explicavam completamente como o treinamento funcionava.

O mistério fazia parte do espetáculo.

Os bilhetes ganham sotaque brasileiro

Ao longo do século XIX, os bilhetes começaram a refletir cada vez mais a cultura nacional.

Ao lado de frases inspiradas em provérbios portugueses surgiam mensagens mais leves e bem-humoradas.

Algumas diziam:

"A paciência abre portas que a força não consegue mover."

Outras aconselhavam:

"Quem cultiva amizade nunca caminha sozinho."

Havia mensagens românticas.

Religiosas.

Motivacionais.

Engraçadas.

O objetivo nunca foi prever o futuro de forma absoluta.

A função principal era oferecer um instante de reflexão.

Uma palavra de incentivo.

Um sorriso.

O realejo e a infância brasileira

Durante décadas, milhares de brasileiros conheceram o realejo ainda crianças.

Diversos escritores registraram lembranças semelhantes.

O som surgia ao longe.

As brincadeiras eram interrompidas.

As moedas eram procuradas às pressas.

Todos corriam em direção ao músico.

Era um momento raro.

Não havia horário fixo.

Nem calendário.

O realejeiro aparecia quando menos se esperava.

Talvez seja justamente essa imprevisibilidade que tenha tornado sua memória tão duradoura.

Presença nas festas populares

O sucesso do realejo não se limitou às grandes cidades.

Ele passou a frequentar:

festas de padroeiros;

quermesses;

romarias;

feiras livres;

comemorações municipais;

festas beneficentes.

Em muitos lugares, sua presença era considerada parte natural da programação.

Enquanto crianças brincavam e famílias passeavam, a música preenchia o ambiente.

Era uma trilha sonora para a convivência.

O Rio de Janeiro e os realejos

Nenhuma cidade brasileira ficou tão associada ao realejo quanto o Rio de Janeiro.

Durante o século XIX e as primeiras décadas do século XX, era comum encontrá-los em bairros como:

Centro;

Lapa;

Glória;

Catete;

Botafogo;

Santa Teresa;

Tijuca.

Muitos cronistas cariocas mencionam sua presença.

O realejo tornou-se personagem frequente das memórias da cidade.

Sua música misturava-se ao som dos bondes, ao pregão dos vendedores ambulantes e ao movimento intenso da então capital federal.

O realejo na literatura brasileira

A importância cultural do instrumento foi tamanha que diversos escritores brasileiros passaram a mencioná-lo em contos, romances e crônicas.

O realejo frequentemente aparecia como símbolo de:

nostalgia;

infância;

esperança;

simplicidade;

vida nas ruas.

Não era apenas um objeto.

Representava um tempo.

Uma atmosfera.

Uma lembrança.

Por isso continua despertando emoção até hoje.

Um país naturalmente musical

O sucesso do realejo no Brasil também pode ser explicado pela forte tradição musical do povo brasileiro.

Mesmo antes do rádio, a música já ocupava papel central na vida cotidiana.

Havia bandas.

Serestas.

Modinhas.

Lundus.

Cantigas populares.

O realejo encontrou terreno fértil.

Seu repertório europeu passou a conviver naturalmente com ritmos locais.

Embora continuasse tocando valsas e polcas, passou a integrar um ambiente musical muito mais diverso.

O início do declínio

Nas primeiras décadas do século XX, o cenário começou a mudar.

Os gramofones tornaram-se mais acessíveis.

O rádio passou a entrar nas casas.

Novas formas de entretenimento surgiram.

Pouco a pouco, os realejeiros foram desaparecendo das ruas brasileiras.

Alguns venderam seus instrumentos.

Outros mudaram de profissão.

Poucos permaneceram em atividade.

Mesmo assim, sua lembrança jamais desapareceu completamente.

A memória permanece

Hoje é raro encontrar um realejo em funcionamento no Brasil.

Entretanto, basta mencionar seu nome para despertar lembranças em muitas pessoas.

Quem viveu sua infância entre as décadas de 1940 e 1970 frequentemente recorda:

o som da manivela,

o pequeno canário,

a expectativa pelo bilhete,

a curiosidade das crianças,

o sorriso dos adultos.

São memórias que atravessaram gerações.

E talvez expliquem por que o realejo continua ocupando um lugar tão especial na cultura brasileira.

Curiosidade

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, os bilhetes distribuídos pelos realejos brasileiros não tinham, originalmente, caráter de adivinhação. Eram, na maioria das vezes, mensagens inspiradoras, pequenos conselhos ou reflexões, próximos da tradição dos antigos almanaques populares.