O Século de Ouro dos Realejos
Quando a música passou a caminhar pelas ruas
"Durante cerca de sessenta anos, nenhuma outra invenção levou tanta música às ruas quanto o realejo."
Se fosse possível viajar no tempo para qualquer grande cidade europeia entre 1850 e 1914, uma das primeiras lembranças sonoras provavelmente seria o som de um realejo.
Hoje associamos as cidades ao ruído dos automóveis, ônibus, motocicletas e sirenes. No século XIX, porém, a paisagem sonora era completamente diferente. O trote dos cavalos, o ranger das carroças, o pregão dos vendedores ambulantes, os sinos das igrejas e, em muitos bairros, a música de um realejo faziam parte da rotina.
Foi nesse período que o instrumento viveu sua maior glória.
Nunca houve tantos fabricantes, tantos músicos ambulantes e tantos instrumentos em circulação.
Uma Europa em transformação
A segunda metade do século XIX foi marcada por profundas mudanças.
A Revolução Industrial acelerava o crescimento das cidades.
Ferrovias ligavam regiões antes isoladas.
O comércio prosperava.
A iluminação pública permitia atividades noturnas.
As praças tornavam-se espaços de convivência.
Milhares de pessoas passaram a viver em bairros densamente povoados, criando um novo público para artistas de rua.
O realejo surgiu exatamente na hora certa.
Era portátil.
Chamava atenção.
Podia tocar durante horas.
Não precisava de eletricidade.
Seu repertório agradava crianças e adultos.
Poucos entretenimentos reuniam tantas vantagens.
A profissão de realejeiro
Ser realejeiro exigia muito mais do que força para girar uma manivela.
Era preciso conhecer as cidades.
Escolher os melhores horários.
Entender o comportamento do público.
Manter o instrumento afinado.
Consertar pequenas falhas mecânicas.
Transportar um equipamento pesado por quilômetros.
Além disso, era necessário conquistar simpatia.
Os melhores realejeiros sabiam conversar.
Contavam histórias.
Brincavam com as crianças.
Conheciam os frequentadores habituais das praças.
Sabiam exatamente quais melodias emocionavam determinados bairros.
Alguns eram verdadeiras celebridades locais.
Um dia na vida de um realejeiro
O trabalho começava cedo.
Antes mesmo do nascer do sol, era comum verificar cuidadosamente o instrumento.
Os foles precisavam estar íntegros.
As engrenagens eram lubrificadas.
Os tubos eram limpos.
O cilindro ou o livro perfurado era conferido.
O pássaro recebia água e alimento.
Somente depois dessa preparação o realejeiro iniciava seu percurso.
Normalmente seguia uma rota conhecida.
Mercado pela manhã.
Praça ao meio-dia.
Feira durante a tarde.
Centro da cidade ao entardecer.
Em dias festivos, podia permanecer horas no mesmo local.
Quanto ganhava um realejeiro?
Não existia salário fixo.
Os rendimentos dependiam de vários fatores.
tamanho da cidade;
quantidade de público;
clima;
festas religiosas;
qualidade do instrumento;
simpatia do artista.
Alguns sobreviviam com dificuldades.
Outros conseguiam formar pequenas empresas familiares.
Há registros de realejeiros que empregavam ajudantes para transportar instrumentos maiores.
Também existiam famílias inteiras dedicadas ao ofício.
Pais ensinavam filhos.
Avôs ensinavam netos.
A profissão era transmitida de geração em geração.
A música da moda
O repertório precisava acompanhar o gosto do público.
Quando uma ópera fazia sucesso em Paris, não demorava para que trechos adaptados aparecessem nos realejos.
O mesmo acontecia com:
valsas vienenses;
polcas;
marchas militares;
canções folclóricas;
músicas religiosas;
melodias infantis.
Assim, o realejo funcionava como um dos primeiros meios de divulgação musical em larga escala.
Antes do rádio, era através dele que muitas pessoas conheciam as músicas mais populares da época.
Muito mais do que ouvir música
O espetáculo não terminava quando a melodia acabava.
Na verdade, era nesse momento que começava a parte mais aguardada.
Ao lado do instrumento quase sempre havia uma pequena gaiola.
Dentro dela vivia um canário.
Ou, dependendo da região, um periquito.
Após algumas músicas, o realejeiro anunciava:
"Quem deseja conhecer sua sorte?"
Formava-se imediatamente uma pequena fila.
O pássaro saía da gaiola.
Escolhia cuidadosamente um cartão.
Entregava-o ao visitante.
A leitura do bilhete provocava risos, surpresa ou reflexão.
Algumas pessoas pediam outro.
Outras guardavam o papel na carteira por muitos anos.
Essa tradição tornou-se tão popular que, em diversos lugares, o pássaro passou a ser tão famoso quanto o próprio instrumento.
Crianças fascinadas
Para uma criança do século XIX, poucas experiências eram tão mágicas quanto assistir ao espetáculo de um realejo.
Não havia televisão.
Não existiam videogames.
O cinema ainda dava seus primeiros passos.
Ver uma pequena ave sair da gaiola para escolher um bilhete parecia um truque de magia.
Muitos adultos recordariam essa lembrança décadas depois.
Em memórias, cartas e autobiografias, o realejo aparece frequentemente associado à infância.
Era um símbolo de alegria.
Um encontro democrático
Uma característica pouco comentada do realejo era sua capacidade de reunir pessoas muito diferentes.
Na mesma roda podiam estar:
comerciantes;
operários;
crianças;
aristocratas;
soldados;
donas de casa;
estudantes;
viajantes.
Todos ouviam a mesma música.
Todos esperavam o mesmo pássaro.
Durante alguns minutos, desapareciam as diferenças sociais.
O espetáculo era igual para todos.
O realejo na arte
A popularidade do instrumento foi tão grande que rapidamente chamou a atenção de artistas.
Pintores registraram realejeiros em praças e ruas.
Escritores utilizaram o instrumento como símbolo de nostalgia.
Poetas compararam sua música à passagem do tempo.
Fotógrafos do final do século XIX eternizaram dezenas de cenas envolvendo realejos.
Essas imagens são hoje importantes documentos históricos.
Graças a elas conhecemos detalhes das roupas, dos instrumentos e do cotidiano desses músicos.
O som das cidades
Existe um conceito utilizado atualmente por historiadores chamado paisagem sonora.
Ele descreve os sons característicos de determinada época.
Hoje ouvimos motores.
No século XIX ouviam-se:
ferraduras sobre pedras;
sinos;
apitos de fábricas;
pregões de vendedores;
realejos.
O instrumento fazia parte da identidade acústica das cidades.
Sua ausência seria percebida imediatamente.
O auge da fabricação
Entre aproximadamente 1870 e 1910, centenas de oficinas europeias produziram milhares de órgãos mecânicos.
A concorrência era intensa.
Cada fabricante buscava oferecer:
melhor qualidade sonora;
maior número de músicas;
mecanismos mais resistentes;
decoração mais sofisticada.
Foi nesse período que nasceram alguns dos instrumentos considerados obras-primas da engenharia mecânica.
Muitos sobrevivem até hoje.
A chegada de novos desafios
Nenhuma era de ouro dura para sempre.
No início do século XX, uma sequência de invenções começou a ameaçar o reinado do realejo.
Primeiro veio o fonógrafo.
Depois o gramofone.
Mais tarde o rádio.
A música passou a ser reproduzida de formas cada vez mais simples e baratas.
O público continuava admirando os realejos, mas novas tecnologias conquistavam espaço.
Sem saber, aqueles músicos ambulantes estavam vivendo os últimos anos de um período extraordinário.
Um legado que atravessou gerações
Mesmo quando deixou de ocupar as ruas com a mesma frequência, o realejo permaneceu vivo na memória coletiva.
Quem cresceu ouvindo suas melodias jamais esqueceu aquele som característico.
Não era apenas música.
Era o anúncio de uma pausa na rotina.
Era a expectativa de um bilhete.
Era a curiosidade das crianças.
Era um pequeno espetáculo itinerante que transformava uma esquina comum em um momento especial.
Talvez seja essa a razão de o realejo continuar despertando emoção até hoje.
Ele nos lembra de um tempo em que o entretenimento dependia menos da tecnologia e mais do encontro entre as pessoas.
Curiosidade histórica
Em algumas cidades europeias, moradores sabiam identificar o realejeiro apenas pela melodia que ele tocava ao chegar ao bairro. Cada artista acabava desenvolvendo um repertório favorito, quase como uma assinatura musical.
Todos os capítulos
- Prefácio
- 1. O Instrumento que Encantou o Mundo
- 2. O Nascimento do Realejo
- 3. A Evolução dos Órgãos Mecânicos
- 4. O Século de Ouro dos Realejos
- 5. Como o Realejo Conquistou a Europa
- 6. O Realejo Chega ao Brasil
- 7. Como Funciona um Realejo
- 8. Os Grandes Fabricantes de Realejos
- 9. O Pássaro da Sorte
- 10. Os Bilhetes da Sorte
- 11. As Músicas do Realejo
- 12. O Realejo na Literatura, na Pintura e no Cinema
- 13. Os Últimos Realejeiros do Mundo